"Aprenda a amar com todo o seu coração e aceitar o lado desagradável dos outros(e o seu). Qualquer um pode amar uma rosa, mas é preciso ter um grande coração para incluir os espinhos."
Não juntei as mãos. Não porque desprezo o que eles fazem, mas porque algo dentro de mim trava. Ceticismo? Orgulho? Medo de parecer ridículo? Talvez um pouco de tudo. Eles entram no momento, fecham os olhos, se entregam. Eu fico ali, olhando de fora, sempre analisando, sempre duvidando.O mocinho egípcio tem suas verdades e fala delas com tanta certeza que às vezes me pergunto se ele realmente encontrou algo ou só aprendeu a contar a história melhor do que eu. Mas, no fim, quem sou eu pra julgar? Eu também larguei tudo sem ter certeza do que procurava. Talvez seja essa a diferença: eles abraçam a incerteza, enquanto eu continuo tentando decifrá-la.Talvez juntar as mãos não signifique acreditar, mas simplesmente deixar acontecer. Talvez o maior cético do grupo seja eu, que ainda não aprendi a confiar nem no que sinto.
A estrada pode ser incerta, mas talvez seja exatamente essa incerteza que nos mantém vivos. Nietzsche dizia que quem tem um porquê enfrenta qualquer como, e eu começo a entender que não é sobre o destino, mas sobre o movimento. O sentido não está na linha de chegada, mas na coragem de seguir, de se transformar ao longo do caminho, de encarar o caos sem medo de queimar no próprio fogo.Penso nisso enquanto Raul ainda toca no fone, me lembrando que "o que é que eu sou nessa vida, meu Deus? Mais um corpo jogado no mundo." Mas será? Talvez sejamos mais que corpos errantes, talvez sejamos fagulhas em busca de algo que ainda não sabemos nomear. E não sou o único que pensa assim. Zaratustra desceu da montanha para falar aos homens, porque sabia que a jornada não é solitária. Bob Dylan já cantava "he who is not busy being born is busy dying", e no fundo, é isso que estamos fazendo – renascendo a cada passo, mesmo quando não temos certeza de onde vamos parar.O mocinho egípcio me confunde, mas até nisso há aprendizado. Há algo de nietzschiano nesse jogo de avanços e distâncias – um eterno retorno de vontades que não sabem se querem ser saciadas ou continuar ardendo. No fim, talvez isso faça parte do grande experimento que é existir sem amarras, sem certezas, sem um script definido.O que eu sei é que o mundo pertence aos que têm coragem de se reinventar. Aos que desafiam o conformismo e ousam buscar algo mais, mesmo sem saber exatamente o que. Não há destino traçado, não há mapas definitivos, só a estrada e a vontade de seguir. Como diria Belchior, "minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais". E se há delírio, que seja pelo risco de viver intensamente.
eu acordo e já sei que o dia vai dar errado porque tudo anda errado há algum tempo e não tem um ponto específico pra culpar, é só uma sensação geral de coisa mal resolvida, eu penso em sair mas sair também custa, tudo custa, até ficar parado custa, e no meio disso eu me pego pensando em coisas que não deveriam ocupar espaço agora, pessoas, ideias, possibilidades que não levam a lugar nenhum, mas mesmo assim insistem, eu tento não pensar muito porque quando penso demais começo a lembrar de coisas que não posso resolver hoje, então eu fumo, bebo um pouco, depois mais, não pra celebrar nada, só pra não sentir esse peso constante de estar falhando em várias direções ao mesmo tempo, e o pior é saber que amanhã não vai ser muito diferente, mas mesmo assim eu continuo andando, falando, fingindo alguma normalidade mínima, porque parar de vez parece mais perigoso do que continuar errado
Achei que fosse o covarde da história, o que fugiu, o que largou tudo sem olhar pra trás. Mas quanto mais olho ao redor, mais percebo que talvez eu seja o mais corajoso dessa tribo perdida. Os outros se escondem em fumaça e teorias, desenham planos mirabolantes que nunca saem do papel, enquanto eu pelo menos admito que não sei pra onde tô indo, mas sigo andando.
O mocinho egípcio, esse enigma que caiu comigo na estrada, me cansa mais do que qualquer caminhada sem rumo. Ele avança quando sente que tô indo embora, se dissolve quando me aproximo. Um jogo que nunca termina, que me faz sentir tão imaturo quanto ele, como se estivéssemos brincando de não nos encontrar.
Enquanto isso, a vida aqui segue no mesmo ritmo arrastado, entre tragos e goles, entre conversas sobre um futuro que nunca chega. E eu me pergunto: se todo mundo aqui tem tanto medo de sair do lugar, então quem é o verdadeiro covarde? Talvez o único que realmente tentou algo diferente tenha sido eu. Talvez coragem seja isso – perceber que essa estrada não leva a nada e ainda assim ter a ousadia de seguir em frente.
Cheguei em Itacaré achando que tinha tomado a pílula vermelha. Larguei tudo, queimei pontes, caí na estrada atrás de alguma verdade maior. Mas agora tô aqui, largado num barco inacabado, com fome, sujo, e me perguntando se essa pílula não tava vencida. Porque, na real, ninguém te conta que se desligar da Matrix não te joga num paraíso iluminado. Não tem manual, não tem guia espiritual te esperando do outro lado. Só tem o vazio. E fome. Muita fome.Ontem à noite, sentado no casco desse barco enorme, olhando a lua entrar pelas frestas, me dei conta de que talvez eu tenha pulado sem olhar. Tudo aqui parece uma promessa que não se cumpriu, tipo aquelas propagandas de mochilão que vendem liberdade, mas esquecem de avisar que liberdade também significa incerteza, perrengue, solidão. Talvez eu tenha tomado a pílula errada. Ou talvez a vermelha não funcione de verdade. No fim das contas, sair da Matrix não é o problema. O problema é descobrir que não tem nenhuma Zion te esperando. Só um barco inacabado, um estômago roncando e um caminho que ninguém te ensina a seguir.
De acordo com alguns filósofos da corrente existencialista o que somos enquanto humanos não é pré determinado mas sim resultado das nossas ações e escolhas, o que somos, nossa essência enquanto humanos é constantemente modificado pelas nossas decisões. De acordo com essa corrente filosófica o conceito de autenticidade e ser autêntico seria justamente não se deixar dominar pelos valores estruturais de uma sociedade e conquistar um espaço na dinâmica social. Viver a Vida fazendo apenas o que é esperado de nós pela estrutura social sem refletir a respeito disso é fugir da responsabilidade de existir verdadeiramente no mundo.