Cheguei em Itacaré achando que tinha tomado a pílula vermelha. Larguei tudo, queimei pontes, caí na estrada atrás de alguma verdade maior. Mas agora tô aqui, largado num barco inacabado, com fome, sujo, e me perguntando se essa pílula não tava vencida. Porque, na real, ninguém te conta que se desligar da Matrix não te joga num paraíso iluminado. Não tem manual, não tem guia espiritual te esperando do outro lado. Só tem o vazio. E fome. Muita fome.Ontem à noite, sentado no casco desse barco enorme, olhando a lua entrar pelas frestas, me dei conta de que talvez eu tenha pulado sem olhar. Tudo aqui parece uma promessa que não se cumpriu, tipo aquelas propagandas de mochilão que vendem liberdade, mas esquecem de avisar que liberdade também significa incerteza, perrengue, solidão. Talvez eu tenha tomado a pílula errada. Ou talvez a vermelha não funcione de verdade. No fim das contas, sair da Matrix não é o problema. O problema é descobrir que não tem nenhuma Zion te esperando. Só um barco inacabado, um estômago roncando e um caminho que ninguém te ensina a seguir.
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